
A (nossa) primeira entrevistada do blogue,
Amantes da Corrida, na
rubrica, "
Quem é quem?" que pretendo que seja publicada na última quinta-feira
de cada mês é com a veterana que nos enche de orgulho a todos nós
portugueses, a consagrada
Maria Orlete Mendes, atleta de gabarito
nacional e internacional que pertence ao Centro de Atletismo das
Galinheiras, com um percurso intocável e um currículo invejável
No ano passado foi " apenas" campeã nacional, na distância de 5.000
metros de marcha atlética e dos 3.000 metros de corrida. Nos Campeonatos
Europeus de Atletismo em pista aberta que decorreu em Budapeste ocupou o
último lugar do pódio nos 3.000 e 10.000 metros em marcha.
No Campeonato do Mundial, em Agosto na Turquia, sagrou-se campeã nos 5.000 e 10.000 metros.
Fui recebido hospitaleiramente pela afável sobrinha, Susana Mendes e a
atleta entrevistada, que vieram ao portão buscar-me, logo à entrada de casa no
"hall" e restantes divisões diversos quadros com fotografias a ilustrar os feitos grandiosos,
por vezes em plena prática desportiva, outras com os amigos, de quem
nunca esquece e que fazem parte do seu passado e trajecto vitorioso. É
impossível perante tanta grandiosidade e humildade desta campeã, sempre
simpática, ficar indiferente à sala onde troféus, taças e medalhas, estão religiosamente expostos.
Fato de treino de uma marca branca, uns ténis calçados num rosto
acolhedor, fazem-me sentir como se fosse do The New York Times,
considerado o melhor jornal do mundo, aqui se evidência uma das suas
características, além da desportiva.

Bem comecemos a entrevista!
Amantes da Corrida: Como começou a correr/marchar?
Maria Orlete Mendes: Eu sempre gostei de atletismo, mas enquanto fui
casada, nunca tive essa oportunidade, em dada altura vi na televisão o
anúncio da Corrida da Ponte 25 de Abril (Meia-Maratona de Lisboa) e
decidi inscrever-me e sozinha fui participar por mera brincadeira.
Este foi o meu primeiro contacto com o atletismo!
A.C.: Continua a participar nesta prova?
M.O.M.: Participo na prova sempre que posso, lembro-me de não ter
participado pouquíssimas vezes, devido ao facto de coincidir com provas
de marcha, que não poderia mesmo faltar.
A.C.: Ganhou a primeira taça, numa prova organizada pelo Centro de
Atletismo das Galinheiras, clube que representa desde então, numa senda
triunfadora de êxitos e sucesso desportivo, qual é o momento mais feliz
ao longo deste bonito percurso?
M.OM.: Para mim, qualquer dia
que corra já é um dia feliz, mas penso que o momento em que fui mais
feliz, foi quando participei no Campeonato Mundial em Porto-Alegre, no
Brasil. Por diversos factores, foi a minha primeira viagem fora da
Europa e depois porque ia representar o meu país e correr ao lado de
excelentes e brilhantes atletas de todo o mundo, foi então que quando
dei por mim, estava a subir ao pódio em 3 das 4 provas em que participei
(2º.lugar nos 10.000 metros, 2º.lugar nos 5.000 metros e 2º.lugar na
meia-maratona), sendo que esta última foi uma aposta pessoal, porque o
meu treinador não queria de modo algum que a fizesse. Mas,
definitivamente este é uma momento muito feliz que irá ficar marcado
eternamente
A.C: Tem 2 filhos e 2 netos, eles correm ou já incutiu neles o gosto pela corrida?
M.O.M.: Apenas um dos meus filhos, o mais novo, que participou em
algumas provas e ainda hoje se tiver oportunidade participa em provas,
contudo tornou-se complicado uma vez que se encontra no estrangeiro,
quanto ao meu filho mais velho, não tem disponibilidade para a prática
do atletismo, porque o seu trabalho não o permite.
No que diz respeito aos meus netos, eles andam na escola e fazem
desporto na escola, segundo palavras deles! Mas todos de uma e outra
forma, em geral a família apoia-me incondicionalmente.
A.C: Qual a prova de sonho, há alguma que gostaria de realizar? Ainda lhe falta fazer alguma coisa?
M.O.M: Eu não tenho nenhuma prova de sonho, porque cada prova que eu
realizo, já é um sonho concretizado, o meu sonho era participar em todas
se pudesse.
Sinceramente sinto que não me falta fazer mais nada, pois sinto-me
realizada e feliz dia após dia e para mim isso é o que realmente
importa, mas claro que tenho a ambição de melhorar os meus tempos.
A.C.: Qual o conselho que dá aos mais novos, ou que agora começou a correr?
M.O.M: O meu conselho é que acima de tudo aproveitem a sua condição
física jovem que possuem e que não desistam dos sonhos e que acreditem
que tudo é possível, porque se eu com a minha idade e tendo começado
tardiamente, consegui alcançar tanta coisa e cheguei aqui, mais
facilmente os jovens que agora começam o conseguem.
Para quem agora começou a correr, façam como os "Amantes da Corrida",
corram, façam um investimento na vossa saúde, a prática do exercício
físico só nos traz benefícios.
A.C.: Quantas vezes treina por semana?
M.O.M.: Treino 6 vezes por semana, aproximadamente 1H: 30 entre o
ginásio e a pista de atletismo. O meu treinador, o Prof. José Henriques
ralha com os mais novos porque não treinam, ou treinam pouco e comigo
também ralha, mas porque treino demasiado (esboça um largo sorriso)
A.C.: Corre para viver, ou vive para correr/marchar?
M.O.M: De certa forma creio que as duas afirmações se aplicam a mim,
contudo acho que a primeira é a que mais se adequa. A cada dia que
passa, sinto mais necessidade e vontade de fazer isto o resto da minha
vida.
Se por este ou aquele motivo não posso participar numa prova ou até
mesmo quando falto a um treino, o meu mundo desaba completamente, é como
se fizesse parte da minha vida, da minha alimentação diária e de
repente faltasse a refeição principal. A comida alimenta-me, por isso
posso dizer convictamente que corro para viver!